quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Inveja.

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Antes, vamos às explicações: eu estava aqui tranquila, retomando um texto antigo cheio de sexo, cigarros, drogas, calcinhas sensuais, garotas possíveis e algum rock n roll (só o de sempre) e tentando terminá-lo, quando percebo que um pedaço dele que havia escrito um tempinho atrás simplesmente desapareceu. DESAPARECEU. Escrevi e não salvei, sei lá. Fiquei louca, obviamente. Enquanto me recuperava, fui lendo umas velharias e achei o texto abaixo, escrito num momento de inacreditável ternura e dúvida. É estranho, vou avisando. Nem sou eu. Achei que nunca publicaria e corro sérios riscos de perder uns dois leitores. Mas, toma!




Minha filha foi o primeiro bebê com o qual eu, de fato, tive contato. Não que antes dela eu não gostasse de crianças, mas eu nunca antes havia achado necessário estabelecer laços com alguém que não fala, não anda e que depende de mim completamente. Portanto, ela foi o primeiro bebê que eu segurei no colo por mais de 2 minutos. E eu não sabia como fazer aquilo. Parecia tudo desajeitado, ela parecia estar caindo o tempo todo e meu colo parecia - espero que só para mim - o lugar menos confortável do mundo. Era impossível fazer aquilo certo. Ainda no hospital eu tinha que me olhar no espelho segurando aquele embrulho pra ter certeza de que parecíamos plausíveis como mãe e filha. Ainda não sei se conseguíamos. Preciso confessar que eu queria muito que ela fosse um bebê normal, e não filha de um cabeludo mal humorado e uma menina de 18 anos que não sabe trançar o próprio cabelo. Então, enquanto me esforçava pra fazê-la parecer ordinária, um bebê qualquer, eu pude me dar conta do quão perfeita ela era. Seus poros eram impecavelmente fechados, ela tinha o olhar tranquilo de quem não conhece o mundo e uma ausência linda de marcas na pele. Eu, enquanto isso, sofria os efeitos do fim da minha adolescência, dos vinhos que eu havia bebido até ali, das doses de uísque, dos cigarros fumados, das noites inconsequentes, do sol tantas vezes ignorado e da carne de porco que comia quase diariamente. Mas tentei não invejá-la. Seria estranho invejar um bebê, talvez tão estranho quanto invejar uma equação matemática. Pensava não ser capaz de amá-la mais do que a mim mesma. Quando engravidei, o mundo ainda girava ao meu redor e eu me recusei por um longo tempo a deixar o picadeiro. Agora, tudo era Alice. Os elogios do pai, meu dinheiro, as músicas que ouvíamos, os presentes criativos de amigos meio artistas, todos dela. Continuei não sentindo inveja, mesmo sem entender. Em casa, longe de todos os olhares, pude aprender a lidar com aquilo. Eu, que sempre havia sido totalmente verbal, aprendi a observar. Ela apertava meus dedos e não soltava nunca mais. Chorava sempre, me pedia muitas coisas e não falava palavra alguma. Enquanto eu amamentava, me mordia com as suas gengivas nuas e me apertava sem sequer imaginar que aquilo doía. Ela me tomava muito tempo. Por quase um ano não tive tempo algum pra cuidar de mim. Minha pele deve ter ficado ainda mais mal tratada, ganhei peso, deixei de fazer as unhas toda semana, deixei de lavar os cabelos todos os dias, passei a ter cheiro de leite materno. Era inevitável. Era matematicamente impossível ser bonita e mãe ao mesmo tempo. Depois de uns anos as coisas foram melhorando, fui me acostumando com aquela nova condição e me adaptando ao novo estilo de vida. Um dia ela cresceu e completou sete anos de idade. Quando cheguei em casa, ela estava brincando com os chapéus do pai, se enrolando nos meus xales e usando uma miniatura de calça jeans. Ela é linda. Eu podia sentir inveja, agora, mas apenas caminho até ela e a aperto, interrompendo a brincadeira.


Mina Vieira.


3 comentários:

crap disse...

que texto cute. muito sensivel, bonito e tal.
Às vezes me pego pensando como eu sentirei quando for pai. Ainda creio que será com um misto de desespero e alegria. mas dizem que o pai só vira pai depois que pega os filhos nos braços, já a mãe vira mãe com o bicho na barriga ainda... mas não sei...
por enquanto evito bebês.

P. disse...

esse lance de cheiro de leite materno é complicado.

ba moretti disse...

Primeiro texto que leio e que o assunto não é só como é lindo ser mãe. Não deixa de ser fato o sentimento de perda e ganho. Tudo muda. Adorei o texto!

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