segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Quando eu fui Clarice Lispector.

.
Não lembro quando, não lembro o motivo, não lembro do clima ou da cor do céu, não lembro do cheiro da fumaça e não lembro nem mesmo se havia fumaça, mas lembro que a rua estava cheia e que os faróis dos carros luziam para atropelar sonhos ou vontades, qualquer intenção muito poderosa. Ou talvez os faróis estivessem apagados, pois era dia, mas é certo que existia alguma espécie de atropelo pulsando naquela esquina.
Os carros coloridos iam, vinham, passavam, corriam, voavam e eu só tentava passar, só tentava dar o primeiro passo. Nunca conseguia, pois o chão me segurava. Como ímã, como cola quente e às vezes como cola de farinha e água ou saliva ou esperma, mas ainda sim conseguia me prender com assustadora eficiência. E eu pensava, pensava e pensava. Tentava assumir o controle do meu corpo, mais precisamente o controle de minhas pernas e meus pés, mas raramente conseguia. E quando sim, um cardume de carros brilhantes atropelava meu êxito, impiedoso. E eu tentava e dizia vamos, corpo, não há carros, não há monstros, não há braços te segurando, há apenas uma infinidade de asfalto esperando para ser pisada mas não, ele nunca obedecia. E acho que ventava, mas caso não estivesse ventando peço licença aqui para inventar um grande vendaval. Ventava e meus poucos cabelos insistiam em grudar na minha boca e cobrir minha visão, sufocar meu grito ou impedir algum tipo de percepção de coisas que eu acreditava ser possível. Mesmo assim, eu via as pessoas e elas não tinham medo. Elas todas levantavam a cabeça e às vezes fechavam os olhos para tomar coragem, mas todas atravessavam. E me arrisco a dizer que lembro que alguns carros até se comoviam e paravam para que ninguém se machucasse, mas não para mim, nunca para mim. Para mim eles todos rosnavam e me diziam não o tempo todo, só para que eu ficasse eternamente morando naquela esquina. E nem era uma esquina feliz. Nem era uma esquina cheia de putas decadentes com um poste meio torto pra iluminar tudo, era uma esquina que só o sol visitava, mesmo quando era noite. Era uma esquina sem grandes atrações e sem padarias, sem açougues, sem teatros ou farmácias, era uma esquina. Um grande muro, talvez. Um casarão vazio, talvez, com um carro velho na garagem e folhas secas pelo chão, como quando a gente fica muito tempo sem limpar a casa. E aquilo não era esquina para mim, não mesmo. E às vezes eu pensava que não havia cola quente que me fizesse ficar morando ali, em pé, para sempre. Às vezes eu pensava que não havia carros, não havia força divina, não havia abismo que me fizesse continuar ali. Mas então eu olhava para as pessoas todas de branco, algumas vestindo jalecos, algumas de seringa na mão, algumas sorrindo e algumas meio nuas, e então alguém me fazia ficar. Então alguém vinha, se dizia meu amigo e pedia pra injetar algo em mim e tudo bem, porque era sempre só uma picadinha. Mas injetavam chumbo, injetavam pesados blocos de chumbo pra me deixar ali parada, ali inerte, ali frágil e ali pronta pra apodrecer. Às vezes eu olhava pro céu e tentava lembrar quanto tempo fazia, mas não lembrava de mais nada. Não lembrava nem mais o nome da esquina, não lembrava nem mais o nome daquelas coisas engraçadas com rodas que brilhavam e sempre paravam rosnando pra mim. Cachorros, me disseram. Um dia eu pedi pra uma moça bonita, uma moça toda de branco que atravessava a rua segurando uma bandeja. Puxei de levinho pelo braço e perguntei qual era o nome daquela coisa que rosna, aquela coisa que para bem de frente pra gente, olha nos olhos e rosna. Ela disse que eram cachorros e a partir desse dia eu passei a dizer a todos, a qualquer um, que era pra tomar cuidado com os cachorros que andavam rápido demais e eram pilotados por donos barbudos, porque esses eram os piores. Alguns riam, alguns tinham medo de mim. Depois eu entendi. Um dia eu acho que acabei entendendo o que acontecia e deixei de precisar colocar nomes em todas as coisas. Pra quê, se eu posso dizer aquilo que rosna, aquilo que anda, aquilo que come, aquilo que atropela e aquilo que brilha? E pra quê, também, se mais ninguém falava comigo. Minha função era esperar minha vez de passar, só isso. Um dia cheguei a colocar o pé no asfalto e foi tão bonito... Mas logo me seguraram. Não vi quem foi, mas se tivesse visto eu teria logo dado uma mordida na mão ou em qualquer parte fácil de morder. Às vezes eu tinha sonhos. Não aqueles sonhos de quando a gente dorme e nem aqueles sonhos que são grandes vontades de participar de grandes coisas, mas sonhos que eram visões, que se pareciam com visões. Às vezes eu sonhava (assim, tendo visões), que a rua começava a ser um jardim com um gramado bem verde e com flores bem grandes, bem coloridas. As pessoas de branco usariam roupas mais felizes e teriam a pele menos cinza. As pessoas de branco seriam boas comigo e sentariam na calçada enquanto eu esperava a minha vez de passar. Elas me ajudariam e conversariam comigo sobre as outras ruas, contariam histórias sobre as pessoas que conseguiam passar. Elas me contariam o segredo. Mas nunca acontecia. Nada nunca acontecia ali naquela esquina. Era algo como uma ponte: as pessoas apenas atravessavam e nunca mais, não tinha volta. Era bom assim, porque aquela esquina não era mesmo um lugar de permanência. Só eu. Eu era a única. Acho que no fundo eles precisavam de mim. Não sei se a esquina, as coisas, ou as pessoas de branco, mas alguém precisava demais de mim ali. Não que gostassem de mim, porque teriam me deixado passar se gostassem, mas porque não deixavam ninguém mais ficar ali, não deixavam ninguém que pudesse me fazer mal se aproximar de mim. Então, um dia estavam todos muito ocupados. Um dia estavam todos num grande círculo conduzindo uma garotinha pelo braço, trazendo-a pra perto de mim. Só a garotinha me via, os olhos de todos os outros estavam grudados com alguma cola poderosa, mais poderosa do que todas as outras que eram usadas para fixar meus pés. Aí eu encarei a rua e vi todos os carros ou cachorros desaparecendo em pequenas explosões. Uma explosão de estrelas prateadas de um lado, uma grande nuvem de fumaça de outro, barulhos de aplausos atrás de mim. E eu olhava e olhava e olhava e não entendia, e queria pegar tudo com as mãos para que nada fosse embora, queria guardar tudo numa grande mala, sentar na calçada e só abrir a mala quando eu ficasse sozinha. Lembro que ainda ventava e que eu sentia vontade de chorar, porque a rua ficou vazia. Do meu lado, só um grande círculo de cegos vestidos de branco. Foi aí que eu entendi. Foi aí que botei um pé no asfalto e nada aconteceu. Foi aí que botei o outro e um grande nada continuou acontecendo. Foi aí que dei um passo e uma enorme felicidade me atropelou, me fez bater a cabeça na sarjeta e começar a sangrar. Foi aí que eu morri. Macabéa.

Mina Vieira.

0 comentários:

Postar um comentário

Seguidores

Quem sou eu

Minha foto
Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil